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Crucificação


Não percebo a "crucificação" de José Rodrigues dos Santos a propósito da sua explicação da evolução da dívida pública portuguesa até aos actuais 233 mil milhões de euros. A explicação foi simples, equilibrada e, na minha opinião, não visava nenhum partido ou governo em particular. Mas afinal qual foi a explicação dada? Foi a seguinte, e passo a transcrever: "A dívida é um problema central na nossa crise porque vivemos uma crise da dívida. Mas como é que esta dívida brutal nasceu? No ano 2000, a dívida pública portuguesa somava 61 mil milhões de euros, o que correspondia a 48 por cento do PIB. Era um valor bem abaixo do limite de 60 por cento estabelecido pelo tratado que criou a moeda única. O problema é que em 2005 a dívida pública portuguesa atingiu os 96 mil milhões de euros, correspondentes a 62 por cento do PIB. Tinha-se ultrapassado neste ano o limite dos 60 por cento estabelecido em tratado e isto obrigava Portugal a travar o endividamento. Mas em vez de travar, Portugal fez exactamente o contrário: o endividamento disparou. Como consequência, em 2011, quando a troika chegou a Portugal, a dívida publica já estava nos 185 mil milhões de euros, correspondentes a 108 por cento do PIB, quando o limite era 60 por cento. Foi aqui que nasceu a crise da dívida em que estamos agora mergulhados. Para agravar as coisas, o Eurostat descobriu que vários países, incluindo Portugal, estavam a esconder a dívida em empresas públicas, dívida que não era incluída nas contas nacionais. Ou seja, o país continuava a endividar-se mas escondíamos a dívida. Bruxelas deu ordem para alargar o perímetro orçamental também às empresas públicas, o que fez ainda disparar mais os números da dívida. De tal modo que no mês passado a dívida pública portuguesa atingiu os 233 mil milhões de euros, um valor que deverá rondar os 130 por cento do PIB, o que é mais do dobro dos 60 por cento a que Portugal se comprometeu por tratado". A explicação foi esta. Parece-me factual, ainda que os termos utilizados nem sempre sejam os mais correctos. Por exemplo, não acredito que o Eurostat tenha descoberto o que quer que seja. Os burocratas de Bruxelas sempre o souberam. Não sejamos ingénuos, se as regras de contabilização da dívida deixavam de fora os empréstimos contraídos pelas empresas públicas, é porque, à data da fixação dessas mesmas regras, havia alguém (e por alguém, não me refiro a nenhum país pequeno e/ou periférico) a quem as regras davam jeito.

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